sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Marco Silva: «Resposta não tem sido a mesma quando voltamos da Champions». E porquê?

Diz Marco Silva, na antevisão do jogo com o Vitória de Setúbal:

«Temos consciência que a resposta que damos em jogos de nível elevado, com adversários fortes, não tem sido a mesma quando voltamos à nossa realidade, que é o campeonato. Quando voltamos da Champions. Temos de retificar isso rapidamente, mostrando a mesma ambição e a mesma mentalidade»

Antes de tentar perceber as razões por trás da constatação de Marco Silva alguns dados estatisticos para perceber o momento em que o Sporting encontra a equipa sadina e que marca o regresso, mesmo que fugaz, de Domingos Paciência, a Alvalade.
Estamos no 8º lugar da tabela, com 17 pontos o que quer dizer que, na conjunção das melhores hipóteses poderemos alcançar o Belenenses na 4ª posição, com 20 pontos. Para isso todos os nossos actuais antecessores teriam que perder pontos, sendo obrigatório que o Belenenses perdesse o jogo. É possível mas afigura-se difícil atendendo a que o Paços de Ferreira recebe o Estoril, o SCBraga vai a Penafiel e o Belenenses joga em casa com o Arouca. Isto dito é muito provável que, ganhando, possamos ultrapassar alguma da actual companhia, é muito difícil que todos os resultados favoráveis ocorram. Como não é impossível, resta desejar que assim seja.

Estamos na pior série de resultados do actual campeonato, depois de termos acumulado a derrota de Guimarães e o empate com o Paços de Ferreira em Alvalade. Do ponto de vista anímico que importância terão estes resultados? O regresso ao campeonato estará presente no espírito dos jogadores ou prevalecerá as 2 vitórias expressivas e categóricas nas taças?

O Sporting tem uma média de 60% de empates em casa (3 jogos)  contra 50% de empates fora (2 jogos) e são estes resultados que explicam o atraso pontual para o actual comandante. A única derrota, com o Guimarães, não teria grande expressão se, por exemplo, contasse com os mais que possíveis 4 pontos dos empates caseiros com Belenenses e Paços de Ferreira. Obviamente que o contrário também é verdade contudo, uma derrota fora de casa e 2 empates em casa com equipas acessíveis são factos que obrigam a análise diferenciada.

Das 8 equipas que comandam a classificação o Sporting é a par do Paços de Ferreira, a equipa com mais golos sofridos (10, média de 1 por jogo), e a 5ª com mais golos marcados (18, média de 1,8 por jogo). Se ao nível de golos sofridos as diferenças são mínimas, a distância de 5 golos para o comandante FCP já é algo significativa.

Perante estes dados concluiria o seguinte:

A importância da Liga dos Campeões não deve ser negligenciada. O factor motivação é óbvio - jogos em grandes palcos, grandes equipas, grandes jogadores - e a ressaca provocada pelo maior empenho, desgaste emocional e físico com o consequente inverso motivacional de encontrar Paços de Ferreira e quejandos, também tem que ser levado em linha de conta. A escassez de recursos individuais de grande qualidade pode também ajudar a explicar alguma da falta de resposta após os jogos internacionais.

 Mas parece-me que os resultados dizem que, para lá de questões como a sorte e o azar, é que o Sporting ainda não encontrou no seu modelo de jogo a forma de contrariar a falta de espaço que as equipas mais recuadas provocam, em particular no último terço do terreno. Não deverá ser por acaso que o Sporting tem mantido um bom registo com equipas chamadas grandes e soçobrado perante as mais pequenas. Ora, como bem sabemos, as equipas nacionais conhecem-nos bem e sabem como nos contrariar. Por isso parece que para mudar a nossa actual situação no campeonato também temos que fazer crescer o nosso futebol. Oxalá isso aconteça já amanhã com o Setúbal.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O apagão: comunicar também pode ser prevenir para não ter que remediar

O Sporting, através de comunicado, insurgiu-se contra a noticia de hoje do Correio da Manhã, onde, com honras de primeira página, se relacionava, de forma pelo menos pouco elegante, que o apagão se deveu a um despedimento de técnicos sem o devido acautelamento das funções desempenhadas. Apesar da noticia ser desmentida a relação de causa e efeito entre os dois factos - o despedimento e o apagão - o Sporting acaba por não esclarecer os reais motivos do ocorrido. 

Ora a noticia do referido jornal parece explorar a ausência de uma explicação cabal para o sucedido e que poderia ter assumido contornos de maior gravidade para o clube, atendendo à competição em causa. Por exemplo, tenho dúvidas que, tal como confidenciei entre amigos, se a competição fosse gerida pela Liga Portuguesa, teríamos beneficiado da mesma benevolência com que fomos brindados pelo delegado da UEFA e do Maribor, esperando quase uma hora pela resolução do problema.

Mais do que reagir às noticias do Correio da Manhã, o que todos gostaríamos de saber é se se tratou de um problema impossível de prever ou uma falha entretanto devidamente solucionada. Obviamente que se o problema for de elevada gravidade, como pretende o Correio da Manhã, ninguém espera que ele seja assim comunicado. Mas, não tendo feito qualquer referência ao sucedido, deixou o caminho aberto à especulação de que agora acusa o CM.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Liga dos Campeões: alta voltagem com o tradicional apagão

Demonstração de superioridade sobre o adversário, deixando clara a diferença que separa as equipas, foi aquilo que o Sporting fez ante o Maribor. Um jogo de alta voltagem da parte de Nani, mas que não deixou de ficar marcado por um apagão, que resultou num golo muito consentido. Este haveria de fazer abanar a equipa, até esta repor novamente a distância de conforto de dois golos.

Muita dessa superioridade ficou logo vincada nos momentos iniciais do jogo, redundando num golo relativamente madrugador. Muita agressividade e pressão sobre o adversário, garantiam a posse de bola para lançar ataques constantes. Esta pressão foi quase constante durante o primeiro tempo, mas a parceria esloveno-brasileira no golo final da primeira parte, fez regressar um Sporting algo hesitante e que, talvez pela demora do apagão, parece ter esquecido os papéis que cabiam a cada um desempenhar. A equipa desagregou-se, perdendo agressividade e facilitando nas coberturas, o que permitiu ao Maribor ver mais vezes a camisola vermelha do Patrício.

Não foram muitas as vezes, mas porém as suficientes para criar perigo, que o Maribor explorou muito bem o espaço ao centro, nas costas dos nossos médios, fazendo surgir diante dos defesas jogadores com a bola controlada sem  contudo lhes dar a melhor sequência. Algo que nós ainda não fazemos mas devíamos começar a pensar incluir no cardápio porque as arrancadas de Nani poderiam ganhar uma dimensão ainda mais letal. E Slimani não estaria tanto tempo ausente ou invisível para os colegas com bola, ou então apenas ao alcance de um aleatório centro desde a linha lateral.

Desta vez, como nem sempre ocorre no futebol, a verdade veio ao de cima, sendo precisamente Slimani a repo-la, pelo menos de forma parcial. Com outra eficácia e não sei se o avião do Maribor não teria dificuldades em levantar voo, por excesso de carga.

Dos mais três preciosos pontos conquistados resulta o apuramento para fase seguinte da Liga Europa, o que assegura a importante permanência nas competições europeias. O bolo e a cereja no respectivo topo pode ainda ser alcançado, com o apuramento para a fase a eliminar da Liga dos Campeões. Que podia ter ontem já ter sido carimbado não fosse esta fase de apuramento ter-se assemelhado a um estranho "Campeonato das Abébias", no que o golo de Jefferson ontem constituiu a última jornada. 

Estranhamente parece que, quando se fala de falhas comprometedoras, parece agora só haver registo do erro grave do árbitro russo, quando o jogo na Alemanha foi preenchido por erros individuais de palmatória e sobretudo a recepção na Eslovénia ter sido brindada por um dos mais patéticos golos sofridos ultimamente. Só neste lance mandamos dois pontos para o éter.

O que é que isto é importante agora? É que não percebendo as nossas próprias limitações dificilmente cresceremos. E, como o jogo de ontem mais uma vez deixou evidente, felizmente sem grandes consequências, a falta de qualidade individual na defesa é um dos nossos algozes mais severos na época a decorrer. Apesar do apuramento para Liga Europa conter os danos, tal não deve iludir que, nos actuais moldes, os nossos interesses estão muito longe de estar acautelados.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Três taças para seguir com ou sem espinhos

Um fim-se-semana em cheio para o futsal (foto RR)
Qualidade e seriedade
Duas palavras centrais a marcar a deslocação à casa emprestada do Espinho: qualidade e seriedade. Começando pela última, não é por acaso que a Taça de Portugal tem associada a si a expressão "tomba-gigantes". Equipas fortes que encaram adversários teoricamente acessíveis sem o devido respeito e acabam fora da competição ajudaram a construir o historial da competição e foi precisamente a atitude oposta a do Sporting em Vila da Feira uma das chaves da passagem à eliminatória seguinte. Quando foi preciso lutar lutou e, depois de fazer prevalecer a enorme diferença de qualidade que separa as duas equipas. O obra de arte no golo de Montero foi o ponto de exclamação num jogo que só foi fácil porque assim a equipa assim o quis.

Uma palavra para o clube anfitrião que, no ano em que celebra o seu centenário, merece mais do que a agonia espelhada por um estádio a desfazer-se aos bocados e o arrastar da sua equipa histórica pelas profundezas do futebol nacional.

Salão de mostra continua de qualidade 
Como aqui já aqui foi várias afirmado, o trabalho realizado de forma sustentada no futsal que dá ao Sporting a hegemonia nacional na modalidade e projecta o nome do clube internacionalmente deveria fazer escola e servir de exemplo. Estabilidade directiva, escolha criteriosa de jogadores e treinadores são algumas das chaves do sucesso que, este fim-de-semana, registou mais uma jornada histórica. O desafio da Final Four é enorme, atendendo ao poderio de qualquer um dos adversários, mas quem tem uma equipa de gente tão focada em ganhar como a nossa pode esperar sempre o melhor.

Fugir aos eslovenos espinhosos 
Poucos poderiam vaticinar que a esta altura do apuramento da fase de grupos o Maribor estivesse com três pontos e em posição de discutir a passagem à fase seguinte da Liga Europa. Porém já conseguiram roubar pontos às três equipas tidas como favoritas, somando três empates, sendo o conseguido na Alemanha o que lança o aviso mais notório sobre o que o Sporting pode esperar amanhã em Alvalade. Ao Sporting só uma vitória interessa para manter intactas as suas ambições de prosseguir em competições internacionais.

O que é melhor para nós, o apuramento para Liga dos Campeões ou Liga Europa?
Não sei se este debate faz muito sentido mas sempre vou dizendo que se é verdade que não temos equipa para ganhar a Liga dos Campeões isso não obsta a que o Sporting deseje prosseguir na mais importante competição de clubes do mundo. O contrário é atraiçoar o espírito que norteia o clube desde a sua fundação e quem tem medo de jogar com os melhores nunca será como eles. E se o medo de perder pode tolher alguns espíritos, porque é que na Liga Europa ele pode ser de todo afastado?

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

De pequeninos a heróis muito por causa de um gigante de 1,82m

Admito que quem nunca viu Damas jogar não perceba o porquê da devoção que os Sportinguistas mais antigos lhe devotam. Infelizmente as televisões nos anos 70 e até mesmo inícios de 80, não tinham o poder que hoje detêm, privando-nos de apreciar a enorme qualidade de muitos dos jogadores dessas gerações, como Damas e outros.

Hoje, graças ao vídeo roubado no Facebook do Rui Malheiro, deixo um registo de uma enorme exibição de Vitor Damas, num empate a zero da selecção nacional em Wembley, completaram-se ontem 40 anos. Os habituais pequeninos portugueses provocariam assim uma enorme surpresa, quando o esperado era por quantos é que os ingleses fechavam a contagem.

Este post já tem palavras a mais, pese embora a falta de adjectivação à altura do meu ídolo de sempre, um gigante de 1,82m, de seu nome Vítor Damas. Ficam as imagens:


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Porque o fim dos fundos é mau para o Sporting. (E para o futebol nacional também)

O que penso sobre os fundos e sobre os fundos no Sporting
Falar sobre fundos tornou-se quase tão corrente como falar da bola que bateu no poste, dos erros dos árbitros, dos golos, etc. Mas quando falamos de fundos estamos a falar do TPO (third party ownership), isto é, da partilha de passes de jogadores entre clubes, entidades financeiras, investidores, agentes, empresários e até mesmo dos próprios jogadores. O seu fim já anunciado provocará seguramente grandes mudanças no futebol em todo o mundo, particularmente na América do Sul e Europa.

Ao contrário do que parece ser a corrente de opinião no actual Sporting, não olho para os fundos e vejo o anti-cristo. Pelo menos nem mais nem menos do que vejo noutro qualquer instrumento ou parceiro financeiro de que o clube se possa socorrer. O problema, a haver, está em quem negoceia e a forma como defende os respectivos interesses. Este não se confinará apenas às negociações com fundos, mas com a generalidade de parceiros a quem o clube recorra para se financiar. Cabe a quem representa o clube nas negociações retirar as maiores vantagens, porque do outro lado da mesa não está o Pai Natal com um saco de prendas, mas apenas alguém que procura ganhar dinheiro. 

O que haverá de diferente aqui se do outro lado da mesa ao invés de representantes da Doyen ou QFIL estiver o chairman de um banco ou entidade de crédito similar?

Especificamente sobre o Sporting lamento que a discussão esteja a ser muitas vezes mistificada, outras vezes manipulada, no que muito contribuíram os maus resultados desportivos que ocorreram no momento em que o clube apostou mais declaradamente neste tipo de financiamento. Os resultados dos rivais provam o que todos sabemos acerca de qualquer negócio: meter dinheiro nos problemas pode vir a representar um problema maior se a aplicação deste não for bem gerido. Ao Sporting faltou sempre alguma coisa ou várias ao mesmo tempo: um bom treinador, estabilidade e saber a dirigir, qualidade do plantel. Quando tinha um faltava outro. Os resultados de SLB, e de forma mais sustentada do FCP, comprovam que poder chegar a melhores jogadores tem um carácter diferenciador.

Depois há fundos e fundos. O que agora sucedeu com a renegociação das percentagens detidas pelo fundo do ex-BES, o Sporting Stars Fund, é o resultado de uma circunstância muito especial - o fim do banco com quem se tinha originariamente negociado - e pelo facto de o próprio fundo ser sobretudo um parceiro do Sporting. Na prática, ao invés de deter acções, o fundo comparticipava no risco de aquisição de jogadores. Risco que, neste caso concreto, e ainda sem fazer as contas, deve ter sido pago sobretudo do lado do investidor. Não fossem estas circunstâncias especiais alguém em bom juízo aceitaria os pouco mais de 12 milhões só e apenas pelas percentagens detidas de passes de jogadores valorizados como William Carvalho e Adrien, por exemplo?

Haveria muito a discutir sobre os fundos no Sporting. Inclusive, por exemplo, se é boa politica disponibilizar percentagens de passes de jogadores ainda em formação. O que me parece é que o clube não deveria abdicar de uma ferramenta como esta, sem pelo menos ter uma alternativa que lhe permitisse estar mais perto dos seus concorrentes directos, sob pena de comprometer a respectiva competitividade.

Perceber a estratégia do Sporting
O Sporting fez deste tema bandeira da actual gestão. Mas já fez uma inflexão notória mas que aparentemente tem passado despercebida nos comentários sobre o tema: começou por pedir a regulamentação da actividade para agora, agitando fantasmas sobre o comprometimento da verdade desportiva, querer a sua extinção.

Várias vezes tenho tentado perceber esta cruzada lançada aos fundos e a conclusão é quase sempre a mesma: O Sporting pretende com o fim dos fundos diminuir a capacidade de investimento dos seus rivais, de forma a deixá-los, sem as respectivas verbas, mais próximos dos valores que consegue aportar ao seu futebol. Isso seria perfeito, mas quanto a mim tem dois grandes inconvenientes, para poder resultar em pleno: 

(i) As maiores receitas dos seus rivais continuarão a possibilitar, pelo menos na teoria de que jogadores mais caros são melhores, maior capacidade competitiva. Os dinheiros dos fundos servem apenas para partilhar o risco na aquisição dos passes dos atletas, as elevadas verbas necessárias para pagar os ordenados destes têm que ser encontradas nas receitas dos clubes. É possível que, com o fim dos fundos, diminuam também as receitas obtidas na realização de mais-valias. Essa diminuição será em grau suficiente para nivelar os 3 grandes?

(ii) O fim dos fundos acabará por ditar um afastamento dos 3 grandes portugueses dos melhores palcos e, consequentemente, das grandes receitas, a menos que se descubra uma forma de contornar a perda do dinheiro destas parcerias. Que impacto tal terá no ranking dos clubes na UEFA, que determina o acesso à Liga dos Campeões/Milhões? Pelo menos no futebol a ideia de ombrearmos com "os maiores da Europa" se já era cada vez mais quimérica passará a ser impossível.

E aqui, na capacidade de atracção de financiamento e investidores, o problema continuará a ser, em grande medida, maior do nosso lado. Hoje a visibilidade do Sporting é inferior à dos seus rivais e isso é notório ao nível das parcerias e patrocinadores. Inverter este cenário é ainda mais ciclópico quando se sabe o atraso de muitos anos que levamos no marketing, corporate e demais áreas comerciais e de promoção da marca. 

Os fundos não representam uma panaceia para todos os males, como sabemos de experiência própria, mas sem eles e sem alternativa, clubes como os 3 grandes portugueses, Atlético de Madrid, Valência, e outros remediados europeus terão que se contentar em serem os eternos figurantes no "el passillo" aos mais ricos.

Todas as estratégias comportam riscos. Sobre a actual partilho a desconfiança sobre estes instrumentos, mas não me auto-excluiria do seu uso sem uma alternativa e não estou muito optimista sobre os seus resultados práticos.

Sobre a generosidade e bondade da argumentação a propósito da transparência do dinheiro e respectiva posse parece-me que quem tem como patrocinadores a Tacho Easy ou a Herbalife se devia abster de grandes comentários. Como em geral sobre quase todo o dinheiro, acrescentaria. 

Sobre o efeito pernicioso dos fundos e relações nebulosas com agentes de jogadores diria mais ou menos o mesmo. Não faltam exemplos, passados e recentes, em que o clube, para fazer valer os seus interesses, atravessou a linha que a lei e a ética impõem.


Que perigo representam os fundos?
Dizer isto não é ignorar os perigos que representa a existência dos chamados fundos. O seu peso crescente no futebol mundial é evidente: 

- Mais de um milhar de jogadores na Europa são já pertença de entidades financeiras. 

- Grande parte destes jogadores pertencem a um reduzido número de entidades ou agentes. O risco de dependência e subjugação dos interesses dos clubes aos interesses de um trust de investidores é notório.

Mais do que a sua extinção, parece-me que a regulação desta actividade, como aliás de qualquer outra, se tornou imperativa. Mas isto não ilude que perigos semelhantes ou até mesmo mais lesivos da verdade desportiva já anteriormente se tornaram realidade no futebol, muito antes da chegada dos fundos. Não mais nem menos do que em todas as outras actividades onde existe grandes quantidades de dinheiro em circulação e em que o apelo do lucro fácil é permanente.


A posição da UEFA e da FIFA
Os organismos que tutelam o futebol internacional têm alergia aos temas fracturantes e sobretudo não gostam de muito barulho e escrutínio. A ideia de extinguir os fundos, ou melhor dizendo, a partilha da posse dos passes dos jogadores, é sobretudo preguiçosa. O futebol não ficará mais equilibrado nem mais transparente. Esta decisão deixa cada vez menos espaço aos clubes de matriz associativa, como é o nosso, deixando o caminho livre ao futebol de clubes com um dono ou accionistas. E o dinheiro encontrará sempre novos caminhos para continuar a crescer e se multiplicar.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Ganhar muito mesmo sem marcar golos

Para lá da habitual da intensa actividade desportiva o fim-de-semana leonino ficou marcado por duas excelentes noticias no âmbito da recuperação do Sporting. 

No quadro da reestruturação financeira, a SAD comunicou à CMVM o Acordo Quadro de Reestruturação Financeira, cuja medida mais mediática foi a recomposição das percentagens dos passes de jogadores do clube, resultando, em alguns dos casos, na detenção da sua totalidade, conforme se pode observar no quadro em anexo ao fundo do post: (fonte: Record). 

Há ainda um conjunto de operações financeiras que vão finalmente permitir o fecho da tão desejada reestruturação, essencial para a estabilização financeira do clube, determinante até para o cumprimento das condições que o Fair Play financeiro estipulado pela UEFA exige.

Não menos importante, no quadro da não menos necessária estabilização interna do clube, saúde-se a presença do presidente Bruno de Carvalho no jantar de homenagem a Manuel Fernandes. Presença obrigatória,  uma vez que os superiores interesses do Sporting têm de estar acima das questões pessoais. Duas excelentes vitórias para o clube que valerão no futuro muitos pontos.


JogadorPercentagem atualPercentagem recuperadaA quem?
Adrien50%20%Holdimo
Betinho90%45%+5%Holdimo+SPF
Andre Carrillo50%20%SPF
André Martins95%25%+40%Holdimo+SPF
Carlos Chaby50%20%+2,5%Holdimo+SPF
Carlos Mané100%40%Holdimo
Cédric Soares100%25%+25%Holdimo+SPF
Cristian Ponde75%20%Holdimo
Diego Capel95%15%+20%Holdimo+SPF
Diego Rubio40%15%SPF
Diogo Salomão40%25%SPF
Fábio Martins100%20%Holdimo
Iuri Medeiros90%20%Holdimo
Jeffren100%20%+25%Holdimo+SPF
João Mário80%15%+15%Holdimo+SPF
Zezinho80%20%+25%Holdimo+SPF
Marcelo Boeck65%15%Holdimo
Matheus Pereira100%20%Holdimo
Mica Pinto100%20%Holdimo
Nuno Reis100%20%+15%Holdimo+SPF
Ricardo Esgaio100%25%Holdimo
Seejou King80%40%SPF
Tobias Figueiredo50%20%Holdimo
William Carvalho100%40%SPF
Wilson Eduardo95%25%+40%Holdimo+SPF












quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A(s) hora(s) do Presidente

O modelo
Só havia visto de raspão alguns dos programas anteriores exactamente pela mesma razão: o desagrado pelo modelo seguido, a fazer lembrar as "conversas em família", e programas semelhantes de outros protagonistas da história contemporânea. A comparação inevitável é desprestigiante para o clube e para o presidente, que perdem mais do que ganham com este formato. Não me parece que BdC esteja preocupado com isso, bem pelo contrário, o que lamento. 

Entre o distanciamento dos corpos sociais aos sócios que alguns dirigentes anteriores impuseram e a permanente exposição do actual presidente, há um encontro a meio do caminho que o bom-senso recomendaria. Acresce que exemplos, como as perguntas da plateia que fazem surgir um gráfico pré-elaborado debaixo da cadeira do presidente, são insultuosos para a inteligência dos espectadores e não ajudam a credibilizar o programa. O tempo interminável, e a fraca prestação de quem deveria não apenas colocar as questões, mas também exercer o contraditório, concorrem no mesmo sentido.

Os convidados
A presença dos directores dos principais jornais desportivos foi a razão que me levou a espreitar o programa. Fui demasiado optimista, a prestação dos três foi fraquíssima. Não apenas porque, talvez intimidados pelo cenário - algumas expressões faciais e linguagem corporal revelaram pelo menos constrangimento -  permitiram praticamente tudo a  BdC  como, em várias ocasiões, demonstraram pouco ou nenhum conhecimento dos temas.

A "entrevista"
Infelizmente houve monólogo a mais e entrevista a menos. BdC fugiu à generalidade das questões, sendo isso visível nos momentos inaugurais do programa, quando foi abordada a questão do relacionamento com os jogadores, (na sequência da pergunta sobre os efeitos da sua "comunicação" no Facebook), apesar de só aqui se terem consumidos os primeiros trinta minutos. Quase nunca usou o "sim", substituindo-o pelo "oiça", "deixe-me dizer-lhe uma coisa" e outras saídas evasivas. 

Ao contrário do que parece ser uma importante parte da opinião, não vejo grandes motivos de regozijo pela prestação presidencial. O prolongamento excessivo do programa contribuiu para acentuar uma das maiores debilidades que lhe reconheço: Bruno de Carvalho domina muito menos do que parece as matérias. E quando se refere a algumas delas, mesmo as que transformou em bandeiras dos seu mandato, não deixa de o fazer de forma superficial, usando chavões mas sem aflorar a sua essência. Não foi capaz de apresentar um número, mesmo que percentual, quando lhe foi perguntado, não foi capaz de nomear uma proposta das que o clube terá apresentado à liga, fala de modelos na formação sem mencionar, mesmo que ligeiramente, um conceito que permita a quem o ouve perceber o sentido das medidas. Contou com a prestimosa colaboração dos seus atónitos(?) entrevistadores.

O que me pareceu mais importante do que ontem foi dito


A formação: Dói quando um presidente apouca o historial do clube a que preside. Os titulos mencionados são inferiores aos que foram conquistados, o que deixa mal o presidente e quem lhe faz a assessoria na matéria. E um presidente que vem falar de títulos quando se fala de formação, comparando os últimos anos com os do seu mandato, para concluir que agora não se ganha menos, parece que não percebe que essa não é a principal medida de aferição do sucesso. (Convém lembrar que não tem nenhum titulo para mostrar). Mas mais adiante já menciona um estudo recente que dá o Sporting como um dos principais fornecedores de jogadores de equipas de topo e as Bolas de Ouro. 

O que nem BdC diz, nem  vejo comentar, é que isso é o resultado de décadas de uma aposta seguida pelo clube, e que o distingue dos rivais. O resultado da passagem de BdC no Sporting começará a ser melhor percebido daqui a alguns anos, apenas parte da sua acção está agora produzir efeitos. Mas, para já, o que tem acontecido, não dá motivos para grande sossego. 

Fica uma última nota: a mudança do treinador na equipa B, que considero a última etapa da formação, na véspera do inicio da época, justificada com falta de dinheiro, foi tão confrangedora como a ausência de reacção de quem o entrevistava.

Liga de futebol
Concordo, como aliás aqui foi dito oportunamente, que a eleição de Luís Duque como presidente da Liga, foi uma afronta ao Sporting. Não concordo é com a reacção, que me parece resultar de ingenuidade e impreparação. Afastando-se voluntariamente, o que o Sporting está a fazer é precisamente o que pretendia a "santa aliança". O que o Sporting deveria fazer era lutar pelas suas convicções no local certo, procurando influenciar decisões e angariar apoios. Assim dá menos trabalho, mais popularidade em alguns sectores, mas o resultado que BdC alcançará será mais ou menos o mesmo ou pior do que o alcançado pelos antecessores.

Taça da Liga
A confirmação da decisão tomada de forma impensada de não apresentar a melhor equipa é, quanto a mim, grave. Há quem veja aqui o mérito do cumprimento de uma promessa, eu vejo exactamente o mesmo problema que o não reconhecimento do erro que foi contratar Shikabala. Porém, se este, pelas diversas envolventes de risco, até posso compreender, permanecer num erro após a possibilidade de reflexão desgosta-me. Pode também aqui recolher aplausos e popularidade mas afasta-se da matriz que sempre me apaixonou no Sporting: o denodo e a perseverança com que sempre nos apresentamos perante as dificuldades. As naturais, que resultam da prática desportiva, e as que nos colocam no caminho. 

Recordo que esta tomada de posição resulta da decisão dos órgãos jurisdicionais da Liga e FPF em não dar provimento às queixas do Sporting na competição no ano transacto. A pergunta que fica é se, sendo coerente com as suas próprias afirmações, (de que deveríamos, descontados os erros de arbitragem, estar a dois pontos do segundo lugar) não deveríamos fazer o mesmo no actual campeonato?

Fundos e investidores
Registei o optimismo de BdC relativamente à futura regulamentação dos fundos. Ao contrário de BdC, não acredito na boa vontade nem benevolência da FIFA ou UEFA. Estas, como é tradição, preferem varrer para debaixo do tapete os assuntos incómodos, como o é a nebulosidade destes instrumentos, ignorando o efeito pernicioso no futebol de outras formas de financiamento, ao arrepio do que devia ser um verdadeiro fair-play financeiro. O que agora é permitido cava cada vez mais o fosso entre os muito ricos e os outros, mesmo entre clubes da mesma liga. 

Não me vou estender nesta matéria, até porque tenho de algum tempo para cá um post alinhavado especificamente sobre este tema, esperando que se cumpra o que foi agora anunciado. 

Para terminar este ponto lembro que o dinheiro da Doyen, do Portuguese Star Fund, da Holdimo é seguramente tão imaculado como seria o dos russos que anunciou. Quem quiser que acredite no contrário, no Pai Natal ou na Carochinha.

A auditoria
Se dúvidas houvesse sobre o que representa a auditoria para BdC, elas ficaram desfeitas com a observação feita às criticas de Dias da Cunha. Responder com uma ameaça desvelada foi também um aviso para todos os ex-dirigentes que tencionem produzir declarações que não se insiram na sua linha de pensamento. Muito feio e sobretudo descredibilizador da própria auditoria.

Nota final
A entrevista, muito mediatizada, tem contudo uma importância prática muito reduzida na vida do Sporting. O  mesmo já não digo relativamente à cada vez maior sujeição e confusão do clube com o seu presidente e com a aceitação por vezes tácita, noutros sectores com regozijo e aclamação, perante cada silaba pronunciada pelo presidente. Um erro já cometido anteriormente, cujas consequência vigorarão por muito tempo. Um erro mais grave do que os anteriores pela repetição e pelos sinais claros que Bruno de Carvalho dá de precisar de se conter e ser contido.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Os processos, o balneário, o 10, o central, o treinador, os jarretas e ressabiados


Era inevitável que a queda para o oitavo lugar não trouxesse atrás de si alguma (ou até muita) turbulência. As notícias confundem-se com os rumores, deixando o adepto a interrogar-se, tentando destrinçar as diferenças entre umas e outras. O post de hoje comentará algumas delas (noticias) ou deles (rumores).



Os processos

Não sei que grau de veracidade tem a notícia deontem no DN, dando conta da intenção de Bruno de Carvalho processar jogadores (Patricio, Nani, Jefferson), por se sentir visado de forma critica, nas reacções pós-Schalke 04. Se havia fundamento na notícia e a intenção não se concretizar abrir-se-á campo à culpabilização dos autores e à vitimização dos citados, no que não seria nada de novo. 

Como dizia o poeta, uma mentira para ser mentira tem de ter um fundo de verdade e é aqui que me interrogo. A notícia parece tão inverosímil que até é difícil de acreditar que possa ter sido inventada, a menos que o jornalista se sentasse a escrevê-la em plena viagem alucinogénica. A ser verdade, significaria um profundo desnorte, e isso sim seria a pior de todas as notícias, uma vez que o Sporting teria tudo a perder. Perderia credibilidade o presidente, que assim se arriscava a perder o balneário (Patrício e Nani deverão ter aí preponderância), acabaria por perder o clube. Por tudo isso prefiro recusar-me a acreditar. 

O balneário

Não sei, nem tenho como saber, como reagiu o balneário às tão faladas críticas públicas do presidente. Pronunciei-me sobre o método, que me parece despropositado, sobretudo por não lhe reconhecer outras consequências contabilizáveis que o ruído e a má imprensa, e por me parecer injusto e produto de uma má avaliação das causas dos problemas. Não me surpreenderia que, por isso, não tivessem caído bem no balneário mas também não vi, na atitude dos jogadores, que os tivesse desmobilizado.

Continuo a pensar que, pelo menos para já, os problemas têm origem em questões técnicas, que cabem sobretudo ao treinador resolver, e nas óbvias limitações do plantel que, para o treinador, são pouco mais que os 15 jogadores a quem deu mais de 300 minutos, um terço do tempo de jogo até agora disputado nos 10 jogos da Liga. Sobre o que hoje se diz de Marco Silva ter vedado o balneário, parece-me mais uma inverosimilhança que também me recuso a acreditar. Do que conheço da vontade dos treinadores, não acredito que não fosse sempre assim desde sempre. Imagino que esta e a notícia do ponto anterior venham a merecer desmentido oficial. 

O 10 e o central

Com a aproximação da janela de mercado é natural que se falem novamente em nomes para acrescentar ao plantel. Um jogador com características de 10 e um central. A questão do central deve ser agora consensual face às evidências, embora "um central de qualidade e experiente" seja uma daquelas expressões tão vazias como infelizes. A aquisição do oposto não faria sentido, embora o Rabia e o Sarr até já cá estejam... A questão do 10 não deixa de me surpreender, porque não vejo onde ele possa entrar no modelo até agora em uso por Marco Silva. E a experiência Shikabala deve ter deixado algum ensinamento no seu rasto de insensatez e perplexidade. Esta questão empurra-nos para o ponto seguinte.

E que tal ouvir Marco Silva?

Depois de uma pré-época a adquirir pacotes de jogadores sem o aval de Marco Silva com os resultados que se conhecem - não vale a pena repetir o nome de jogadores que o treinador não reconhece valor para contar com eles -  talvez fosse bom envolver o treinador no processo, se ele vier a existir, de futuras aquisições. Esta possibilidade faz ainda mais sentido quando se ofereceu a Marco Silva um contrato longo, o que esbate o perigo de contratar jogadores que, com a saída deste, acabem por ficar a embaraçar nos corredores. Duvido, embora reconheça o carácter especulativo do meu sentimento,  que estivéssemos a sentir os problemas que estamos a sentir com o lote de centrais, se o treinador tivesse tido uma palavra a dizer na sua definição.


"Jarretas, ressabiados e gente que perdeu o tacho"
Nos últimos tempos várias foram as vezes que me foram dirigidas criticas, sob as mais diversas acusações, o que se pode observar mais ou menos pela generalidade das redes sociais. O tempo acaba por ser o maior clarificador e, para quem se quiser dar ao trabalho de verificar, a linha editorial do blogue não mudou com o tempo, sendo provavelmente muito mais critica no passado do que é hoje. 

Algumas das preocupações aqui expressas na constituição do actual plantel talvez sejam melhor compreendidas hoje. Por exemplo, na formação, tantas vezes aqui tratada, os maus resultados e pior, as más exibições, acumulam-se. A derrota dos Iniciados A (sub-15) com o último classificado da série (!) foi a última e falta apenas saber se, à semelhança dos atletas da equipa de séniores B, também foram correr para a praia. 

Agora já faz sentido a preocupação sobre a generalidade da politica desportiva seguida pela SAD, sobre o que se passa em Alcochete, ou é mesmo apenas conversa de "jarretas, ressabiados e de gente que perdeu o tacho?"

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Depois de 4 vitórias, 5 empates e 1 derrota, a pergunta que se impõe


Está quase concluído o primeiro terço do campeonato. Nestes dez jogos o Sporting ganhou apenas a equipas que estão posicionadas abaixo do décimo lugar da tabela. Hoje, se o Rio Ave vencer, cairemos para o oitavo lugar. 

Este ritmo de empates (5) é igual ao verificado há dois anos, quando o ficamos de fora das competições europeias. Nos últimos seis jogos oficiais, e apesar da boa prestação atacante (14 golos!) estamos a sofrer uma média também elevada de golos (13 golos), com a agravante de estes acontecerem em todos os jogos.

Isto é um padrão, revelador da qualidade do plantel e do trabalho e Marco Silva ou uma mera tendência passageira, em que a distância pontual é perfeitamente recuperável?

"Mentira... nunca se va."



Mentiroso, fraudulento, clandestino, nojento... é assim este pobre (e podre) futebol português.

Só para falar na jornada de ontem: se existisse verdade desportiva, acabávamos a 10.ª jornada a 4 pontos da liderança. Como não existe, aí está a classificação aldrabona a mostrar apenas e só o dobro da diferença.

A questão que fica é: para quando a apaf em fora-de-jogo?

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Sporting 4 - Schalke 2: digníssima qualidade!

Quando, ainda tão cedo no jogo, sofremos um golo, ainda por cima um auto-golo, parecia que os deuses da desgraça haviam marcado nova reunião em Alvalade, à semelhança de tantos outros conclaves ali efectuados em jogos nacionais e internacionais. Porém, a equipa recusou o papel de mordomo dos deuses e dos alemães e reagiu, numa demonstração de carácter e alardeando qualidade indiscutível. Na primeira parte ainda com alguma insegurança, no inicio da segunda com enorme vontade e categoria.

O homem do jogo
Nani. Ainda parece que só o estamos a ver nos sonhos mais ousados mas ele já cá mora e a ele se deve grande parte da nossa qualidade ofensiva. Obviamente que Nani se destacaria sempre numa equipa de pernetas, acontece que, felizmente, a nossa equipa é bem mais do que isso e os golos de Jefferson e o do próprio Nani são o resultado de uma mistura de execuções individuais de primeira água com envolvimento colectivo.

O momento do jogo
Há vários lances candidatos, o golo do 3-1, o do 4-2. O meu é o momento mágico em que Rui Patrício esconjurou definitivamente os maus agoiros que às vezes, nem mesmo jogando a bom nível, nos impedem de conseguir bons resultados. Aquele lance, que daria o empate, só é possível pela coragem, qualidade imprescindível num guarda-redes, e com uma leitura de jogo perfeita. Sem ela Patrício nunca estaria ali naquele lugar a tempo. Ou ficaria uns passos atrás, com a baliza a parecer o estuário do Tejo ao avançado alemão ou, como tantas vezes acontece, chegaria suficientemente atrasado para não conseguir intervir, ou até mesmo fazer um penalty clássico.

O balneário ouve e sente o que se diz dos seus ocupantes?
Se dúvidas houvesse sobre a permeabilidade do balneário às criticas e ao ambiente envolvente basta ver as declarações de Nani ( ...temos de saber lidar com a derrota. A derrota faz parte do desporto e quem não sabe perder também não sabe ganhar. Demonstrámos que sabemos perder e hoje demos uma boa resposta com uma excelente vitória) e sobretudo Marco Silva (um grande carácter, entrámos bem no jogo, depois, em momentos como este, tudo acontece. Voltámos a sofrer um autogolo, mas nunca deixámos de acreditar em nós próprios), que ainda esteve muito bem ao dedicar a vitória aos adeptos que foram agredidos em Guimarães.

E agora já somos os maiores outra vez?
Nada melhor do que apanhar o Paços de Ferreira, do regressado Paulo Fonseca, para nos demonstrar que há diferença entre os jogos internacionais e os jogos do campeonato nacional. O que o Guimarães nos fez sofrer no sábado é bem possível de ter reedição já na próxima jornada, apesar das enormes diferenças de qualidade individual entre as equipas do Paços de Ferreira e o Schalke 04. Paulo Fonseca não só nos conhece melhor, como a generalidade dos treinadores portugueses, como também me parece melhor esclarecido sobre como nos parar do que Di Matteo. O jogo de ontem não mudou nada nas apreciações gerais feitas às virtudes e debilidades colectivas e individuais do plantel, tal como o mesmo devia ter sucedido na sequência do jogo de Guimarães.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Ciclotimia presidencial

A propósito destas declarações de Manuel Fernandes (18/09/2014)


O presidente Bruno de Carvalho reagiu assim:


Agora, por ocasião do resultado de Guimarães, o próprio presidente Bruno de Carvalho declara sobre as prestação da equipa A e equipa B:

Saúde-se o facto de o presidente usar o plural mas não creio que faça algum sentido colocar em causa a sua dignidade ou a dos restantes profissionais do clube por causa de uma má prestação que redundou num mau resultado. Entendo até como profundamente injusta uma acusação desta gravidade - a dignidade está intimamente ligada honorabilidade - quando a prestação geral da equipa tem sido irrepreensível, mesmo até quando não se ganha, como foi o caso recente em Gelsenkirchen. 

Ao contrário dos que acreditam que esta "pancada" é necessária e e vai fazer com que os jogadores "corram mais e tenham mais garra", logo fiquemos mais próximos de ganhar o próximo jogo, parecem-me que estas declarações tendem mais a produzir danos do que a melhorar a produção da equipa. Isto porque garra e vontade de vontade são apenas uma das muitas componentes para se sair vitorioso de um jogo, mesmo que considerando o seu carácter basilar. Depois porque, se as palavras do presidente tiverem soado imerecidas no balneário, o sentimento de injustiça ao invés de agregador tendem a produzir fragmentação. 

Acresce que, com o ciclo de jogos de elevada dificuldade, como por exemplo o de amanhã, a possibilidade de acumulação de resultados adversos - que, por exemplo, no limite poderia deixar-nos mal colocados até para o apuramento para a UEFA - a instabilidade e a descrença se instalarem. Ora o presidente do Sporting tem de ser, para o interior do balneário e para a bancada, um referencial de estabilidade e não o combustível para a habitual ciclotimia do adepto. Por isso quer pela forma quer pelo momento estas declarações merecem a minha total discordância. Com a agravante de, por muito menos, ter posto em causa alguém como Manuel Fernandes.

Pior mesmo foi o castigo aplicado à equipa B, a quem foi cortada a folga e posta a correr na praia. Como me dizia um amigo, será que os responsáveis pelos três treinadores esta época, pelo esvaziamento de qualidade, com as aquisições de jogadores sem qualquer outra recomendação que não sejam os quilos e os centímetros, também vão por os pezinhos na areia?

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O que fica do valente trambolhão em Guimarães?

Em Guimarães o Sporting esteve quase sempre voltado de costas para o jogo
Nem tão maus agora nem tão bons 
Uma derrota tão expressiva, num jogo em que a equipa esteve quase permanentemente subjugada ao adversário, traz consigo as análises mais desequilibradas. Infelizmente esse desequilíbrio é tão notório na blogosfera como, pelo que se pode ver hoje nos média, nos comentadores, chegando até à cúpula directiva e técnica. Não somos tão maus hoje como não éramos tão bons antes do jogo começar.

Não me parece justo individualizar culpados, expondo alguns jogadores, quando o falhanço foi colectivo. As razões para a derrota explicam-se nas falhas de todos, a começar pelo treinador que, quanto a mim, avaliou mal o adversário. Quando grande parte dos danos já estavam concretizados, interpretou mal as necessidades da equipa, deixando-a ainda mais exposta ao adversário e à sorte do próprio jogo.

Quanto vale o coração e a inteligência?
Grande parte das análises ficam-se pela explicação primária sempre que se perde um jogo como se perdeu este: falta de garra e de entrega, não dando qualquer importância à forma como os treinadores abordam o jogo e colocam as suas equipas. Hoje a acusação fácil de falta de atitude aos jogadores vinga sobre a ensaboadela táctica que Rui Vitória deu a Marco Silva. Não é primeira vez que o treinador vitoriano demonstra saber muito bem o que é preciso para derrotar equipas melhor dotadas técnica e individualmente, talvez nunca tenha sido tão bem sucedido como o foi no sábado.O Vitória ganha porque o seu treinador conseguiu que a sua equipa o fosse realmente e Marco Silva não soube como o contrariar.

Rui Vitória viu certamente muitos jogos do Sporting e percebeu que as suas hipóteses aumentavam se impedisse que o Sporting tivesse a bola muito tempo nos seus pés e se pressionasse o momento inicial de construção. Não deu muita importância à bola nos pés dos centrais o que, atendendo ao que se sabe da sua qualidade, não é propriamente a descoberta da pedra filosofal. A partir daí, como uma equipa extremamente reactiva sobre a bola e o seu portador, tornou os jogadores do Sporting ilhas isoladas, particularmente os do meio-campo. E tê-lo conseguido com os jogadores com maior potencial desequilibrador, como Nani e Carrillo, e tornando João Mário um fantasma em campo, foi decisivo. O resto explica-se pela marcha do marcador: um golo ainda antes dos vinte minutos, outro antes de ir para o balneário, o que constituiu o doping que fez o Guimarães sentir-se sempre superior e os jogadores do Sporting impotentes para os contrariar.

Sacudir a água do capote
Marco Silva ( a ser verdade o que vem sendo escrito desde sábado à noite...) faz muito pouco e mal ao remeter as culpas para os jogadores. Falta-lhe a humildade de reconhecer que o seu colega lhe esteve superior, como lhe faltou o discernimento de juntar mais as linhas, de forma que fosse possível jogar mais apoiado. Ao invés, preferiu a bola para a molhada, à procura da cabeça de Slimani, deixando logo ali o resultado mais entregue à sorte do que ao saber.

O presidente Bruno de Carvalho também alinha nas criticas à postura dos jogadores, estendendo-as à prestação ridícula dos B's. Eu não misturaria as duas derrotas, porque elas têm causas diferentes e só muito remotamente se explicam pela falta de vontade de vencer. No que à equipa principal diz respeito há debilidades que não foram resolvidas atempadamente que, por isso, justificavam maior cautela na hora de assumir maiores compromissos, como foi a a candidatura ao titulo. Essa responsabilidade não pode nem deve ser iludida, descarregando sobre os jogadores. Responsabilidade que é, em primeira instância da SAD, que formou  o plantel e Marco Silva que o aceitou, bem como ao discurso de candidatura, sem pestanejar.

Quanto à equipa B parece-me é que se estão a recolher os frutos inevitáveis da instabilidade e cada vez mais evidente má gestão. Milagre era se, com as mudanças constantes, sem critérios objectivos nas escolhas que privilegiem o mérito e qualidade dos intervenientes, os resultados fossem outros.

A realidade e o wishful thinking
Há um toque de cruel ironia quando, depois de uma semana em que de discutiu se era ou não o Sporting a equipa que praticava o melhor futebol, acontece um resultado e sobretudo uma exibição tão confrangedora como esta. Como na maior parte das ocasiões, e é este o sentido geral do presente post, há que não especular em demasia sobre um resultado anómalo. Parece-me mais assisado olhar para o âmbito geral do que para apenas um momento. E é por aí que se chega realidade construída nos factos. Salientaria os seguintes pontos, que me parecem importantes:

- O Sporting está com uma média de pontos muito baixa para uma candidatura ao titulo: 1.77 pontos. Se não a melhorar arrisca-se a não assegurar sequer o terceiro lugar, uma vez que não chegaria aos 60 pontos. Felizmente parece que os possíveis pretendentes, como o Braga ou até mesmo o Maritimo, não andam muito melhor. Mas o Paços de Ferreira já vai à nossa frente e o treinador é o mesmo que lhe proporcionou a melhor classificação de sempre.

- Poder-se-ia pensar que tal se deve ao facto de ter jogado já com os principais rivais. Contudo, nesses jogos permanecemos invictos, dividindo pontos. Onde se perdeu terreno de forma inequívoca foi com adversários de menor valia aparente, mais propriamente sete pontos com Académica, Belenenses e agora o Vitória. É assim que se diz adeus aos campeonatos.

- É também cada vez mais evidente hoje o que se dizia aqui desde o inicio do campeonato: o plantel à disposição de Marco Silva é curto em qualidade, existindo muito poucas opções válidas para os titulares habituais, numa equação em que, por razões óbvias, não inclui Nani. 

- Onde o problema é pior é obviamente na defesa, atendendo a que a quase totalidade dos titulares não têm categoria para o merecer ser no Sporting. Maurício pode estar na linha de fogo por ter estado nos dois primeiros golos mas a exibição de Paulo Oliveira veio mais uma vez por no lugar as construções artificiais sobre o seu valor, tão fraca foi a sua prestação. Este é actualmente o principal problema do Sporting, que podia ser atenuado pelo colectivo mas não tem sido. Se no sábado a falha foi geral, na maior parte dos pontos perdidos anteriormente a origem foi-lhe quase exclusiva. Quando se fala em reforço do sector para Dezembro pode-se estar a falar do irremediável.

Arbitragem
Não fica muito bem falar de arbitragem num jogo como o de Guimarães. Mas sempre digo que se um fora-de-jogo que precede um dos golos pode ser desculpável, ver o penalty e não ver a falta que o precede dá para pensar que o árbitro também se quis associar à festa branca.

Violência
Inenarrável mais uma vez o ambiente  em alguns locais em volta do estádio, a fazer vitimas entre alguns adeptos menos prevenidos sobre o que é ir a Guimarães. Uma vergonha para o historial e importância que a cidade e o clube têm no respectivos contextos nacionais. Uma vergonha como sempre para a actuação da policia que age de forma tão cobarde como estes grupelhos de facínoras, sendo, com sempre, fortes com os fracos. Fujo tanto de uns como de outros. 

Aqui parece-me muito curta a reacção do Sporting, nas palavras do presidente Bruno de Carvalho. Dizer que “Lamentamos também que continuem a existir situações de agressões graves nos estádios portugueses como foi o exemplo neste jogo de dois adeptos sportinguistas esfaqueados" é muito pouco perante a gravidade do sucedido" é muito pouco, até por comparação da dureza das palavras escolhidas para qualificar as prestações das equipas A e B. Exigir um rigoroso inquérito, e atribuição de responsabilidades à organização do jogo é o mínimo olímpico.

Inqualificável é também a passividade das sucessivas direcções do Vitória, perante a reiterada ocorrência de factos desta gravidade. Beneficiam amplamente da passividade das autoridades policiais e da tutela desportiva. Não sei se estão à espera que morra alguém para poderem brindar-nos com os eloquentes palavras de circunstância. Se isso algum dia suceder são tão responsáveis como os autores e cada vez mais me convenço que se merecem todos - clube, adeptos facínoras, FPF, policia, ministérios da tutela - uns aos outros.

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